domingo, 20 de janeiro de 2019

E se fosse na igreja dos outros?

Somos bastante críticos com o que se passa na religião dos outros, mas cegos com o que ocorre dentro da nossa. Essa visão tão boa para o que se passa fora de nosso mundo e uma crônica miopia para o que é nosso é um defeito de quase todo mundo. Estamos ou queremos estar bem acomodados e felizes em nosso ninho. Não queremos imaginar, nem de leve, que nascemos na religião errada, que nosso Deus é um ídolo, que nossos líderes espirituais são charlatães; pior ainda pensar que nosso pai, nossa mãe cultuam falsos deuses, que nos alimentaram de venenos... Porém, é a triste realidade de muitos. Ter a capacidade de ver a própria religião de fora para dentro, é algo que poucos têm.
É comum um membro de uma religião ver o membro de outra como alienado ou ter sofrido lavagem cerebral. Mas ele mesmo não ver nele tais adjetivos. As grandes religiões dominantes em geral não se veem como alienadas. Alienação e lavagem cerebral é coisa de seita. Mas se enganam. Percebemos a lavagem cerebral das seitas porque elas são pequenas. Uma minoria se comportando diferentemente da maioria fica visível demais; daí as pechas. Todavia, com o crescimento de adeptos, ninguém ver mais problema na seita. Até a palavra seita deixa de ser usada para se referir ao grupo de crentes - ganha o status de religião. O cristianismo era chamado de seita ( Atos 24,14 ) e , de fato, era uma seita judaica. Se propagou rápido e se transformou na maior religião do mundo. Assim está ocorrendo com os mórmons; que nos EUA praticamente não são mais tratados como seita. E no Brasil, a Assembleia de Deus deixou para trás o seu passado sectário; quando se dizia que era seita de pobre, analfabeto, favelado, negro... Também graças ao proselitismo, ela cresceu e se tornou a maior denominação protestante do País.
É preciso, contudo, esse olhar de fora para dentro para ver o quanto a religião de cada um é mesmo saudável. No Catolicismo Romano o fiel não questiona, por exemplo, a vida monástica. Faz tanto tempo que praticam esse tipo de espiritualidade que não enxergam nada errado nele. Porém, imaginem se não tivessem desenvolvido o monasticismo; imaginem, então um pastor qualquer aí inventando isso; alugando uma casa, enchendo-a de rapazes ou moças para viver trancados, sem poder se casar, só rezando! Com certeza eles achariam um absurdo tal lavagem cerebral que priva rapazes e moças de se casarem e condena-os a viverem longe do mundo. Acionariam até o ministério público para acabar com essa pouca vergonha. Nas Assembleias de Deus o fiel não questiona muito o sistema de governo. Não veem ou não querem ver que seus pastores presidentes são quase donos da igreja. Possuem poderes ditatoriais. São os "ungidos" do Senhor aos quais o fiel não pode pôr a mão para não ser punido por Deus. São piores que papas. Criticam a doutrina da infalibilidade papal, mas na prática consideram seus pastores presidentes infalíveis. Não ter uma doutrina escrita em catecismo não significa que na praxe ela não exista. A doutrina católica da infalibilidade do papa foi vivida na igreja romana por 17 séculos, mas só se tornou dogma em 1869.
E se fosse na igreja dos outros esse sistema de governo assembleista? Sim, aí muitos veriam o erro.
                                        Dan Sylvhard

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